Dezembro 17, 2008...7:47 pm

Nota pública contra a Univesp na USP

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No último Conselho de Graduação da USP (CoG), realizado na quinta-feira dia 11 de dezembro de 2008, foi apresentada uma minuta feita pela pró-reitora de graduação, Profa. Dra. Selma Garrido Pimenta, em resposta ao protocolo de intenções, de 16 de abril de 2008, firmado entre a Secretaria de Ensino Superior e a Universidade de São Paulo, para a implementação do programa “Universidade Virtual do Estado de São Paulo – UNIVESP”.

A UNIVESP é um programa criado pela Secretaria de Ensino Superior do Estado de São Paulo, que se propõe a democratizar o acesso à universidade pública através de cursos de graduação (licenciaturas) com 80% de aulas a distância. A maior crítica que o movimento estudantil (ME) tem em relação à UNIVESP é a qualidade da formação que estará sendo oferecida a esses alunos, pois, o ensino a distância não garante a formação com os três pés da universidade (ensino, pesquisa e extensão), não permite a dinâmica viva da sala de aula e o contato cotidiano com os colegas de curso e de outros cursos também. Além disso, o projeto promete um bônus salarial e dispensa das aulas presenciais os professores que a ele aderirem. Não teremos contratação de mais professores para a UNIVESP, portanto, teremos falta de professores para os cursos presenciais.

A minuta da pró-reitora e o protocolo de intenções só chegaram às mãos dos conselheiros no mesmo dia, no início da reunião. A UNIVESP nunca havia sido debatida no CoG, tampouco no Co, entretanto, logo de início, Selma Garrido deixou claro que, ali, não estaria em discussão se a USP participaria ou não, dado que a USP participaria, bastava o CoG definir como participaríamos, pois essa pauta já havia passado pelo Co. Discordando da afirmação da pró-reitora, os Representantes Discentes (RDs) pediram para ver a ata da referida reunião do Co.

A minuta elaborada pela pró-reitora começa falando sobre a (falsa) aprovação do protocolo de intenções de abril pelo Conselho Universitário, depois justifica o ensino a distância na USP pelas regulamentações em nível federal, estadual e no âmbito da USP. Acompanhando a minuta, há uma portaria que traça “diretrizes gerais para elaboração, pelas Unidades Universitárias da Universidade de São Paulo (USP), de propostas de criação de Cursos de Graduação do Programa USP/UNIVESP; procedimentos para análise do mérito acadêmico das propostas de criação de cursos pelos Órgãos Colegiados competentes do Conselho de Graduação; bem como procedimentos para a realização do Concurso Vestibular, (…)”. A portaria se compõe de cinco artigos que são demasiadamente vagos e não se aprofundam nos detalhes do ensino a distância.

Várias foram as intervenções questionando o programa USP/UNIVESP, a minuta e a portaria, vários foram os pedidos de professores e estudantes para que se fosse discutida a pauta com mais tempo. Entretanto, a pró-reitora dizia que esta deliberação era apenas para institucionalizar o ensino a distância na USP, que não estávamos analisando um curso em específico e sim traçando diretrizes gerais e que isto precisava ser aprovado ali para que houvesse o vestibular para esses cursos na metade do ano de 2009. Quando quis partir logo para os encaminhamentos, foi questionada pela décima vez sobre a ata do Co e sua secretária admitiu que a pauta não havia passado por lá e sim pela COP (Comissão de Orçamento e Patrimônio). A proposta de professores e estudantes, de que se retirasse de pauta a minuta e de que se encaminhasse um Grupo de Trabalho que a discutisse detalhadamente foi simplesmente ignorada. Selma Garrido nos impôs duas possibilidades: aprovar ou aprovar, a sua minuta. No ato da votação apenas quis contabilizar os favoráveis e as abstenções, então os RDs pediram para que se fosse encaminhado de forma correta, a fim de contabilizar também os votos contrários. Foram 15 votos favoráveis e 13 votos contrários.

A estrutura anti-democrática da Universidade corrobora para que decisões como esta sejam feitas de forma atropelada, desrespeitando a autonomia da universidade.

Defendemos a ampliação do acesso à USP, contudo, esta ampliação deve ser feita com qualidade, com expansão de vagas presenciais na universidade, permitindo a formação consistente de todos os alunos.

Conselho de Centros Acadêmicos da USP (CCA), 13 de dezembro de 2008

3 Comentários

  • Parabéns Univesp. Parabéns governo estadual pela iniciativa. Também parabéns governo federal pela mesma iniciatia com a UAB.
    Enfim vão permitir que pessoas de outras classes sociais possam usufruir de universidades públicas.
    Eu sabia que a USP, e demais da elite falsamente politizada e democrática, não iria gostar. Afinal pobre tendo direito a ter diploma de rico? Sem precisar gastar horrores e anos de cursos e cursinhos particulares caríssimos.
    Por favor Governo, não desistam, persistam. Nós “O povo” não elitizado o parabenizamos, e especialmente o apoiamos. E ansiavamo por isto!
    Foram dircursos e defesas hipócritas como o desse pessoalzinho da USP, que criaram um abismo entre o acesso às universidades públicas e a classe menos favorecida.
    Por favor Governo, não cedam , continuem a democratizar. Chega de profissionais formados por conveniência e não por VOCAÇÃO!!!

  • Sandra, podería citar muitas coisas sobre o que acho ser uma democracia verdadeira no acesso à Universidade.
    Como não tenho tempo, nem acho que seja o melhor espaço, vamos ao porquê da Univesp não sê-lo.

    Em primeiro lugar a Univesp possibilita a criação de novos cursos, não necessariamente tão bons quanto os atuais, com foco nos professores sem diploma.

    Como a criação destes cursos de segunda mão, sem aula presencial, ainda mais para um futuro professor que trabalhará desta maneira, pode ser uma forma de democracia? São cursos que podem muito bem ter o mesmo conteúdo daqueles presenciais, mas com certeza não tem o acompanhamento de professores, muito menos a vivência (ou o famoso currículo oculto) de um curso presencial.

    Democratizar o ensino no país é criar novos cursos com formatos alternativos e sem contratação de novos professores?

    Penso que as cotas socio-economicas e raciais ainda são mais eficientes (e posso passar pesquisas que comprovem, como o Ideb, caso queira), e o investimento sério no ensino fundamental e médio, com o trabalho pelo fim do vestibular e não sua reforma sejam mais eficientes.

  • sandra, obrigada pela participação! é sempre bom saber que o blog do calc tem leitores.

    como você e, acredito, a maior parte dos brasileiros, o calc também se preocupa com o acesso dos menos favorecidos à universidade. a discordância que a maioria de nossos membros tem em relação à univesp não é, de forma alguma, advinda do público que essa pode vir a atender, mas sim ao tipo de universidade (deficitária) que ela pode vir a oferecer. nossas restrições ao ensino à distância não são no sentido de que estaria-se oferecendo um diploma a um cidadão de segunda classe, como você sugeriu, mas um diploma de segunda classe a um cidadão.

    se você analisar o ante-projeto da univesp (http://www.ensinosuperior.sp.gov.br/sis/fl/download/artigo_revista_usp.pdf), pode observar que o seu objetivo fundamental (mais até do que incluir as classes que tradicionalmente não têm acesso ao sistema público de ensino) é a formação de professores. o ante-projeto cita um déficit de cerca de 60.000 profissionais no ensino público.

    a univesp vem para tapar esse buracão do governo. já são mais de 6.000 vagas de licenciatura criadas, a maioria delas (5.000) de pedagogia. o problema que eu vejo, no entanto, é que não há falta de profissionais no mercado para a maioria das áreas de licenciatura, com algumas excessões, como física e matemática. esses profissionais deixam de chegar à escola pública não porque eles não existem em número suficiente, mas porque o ensino público oferece notadamente péssimas condições de trabalho, assim como uma remuneração indigna. um profissional formado em licenciatura em biologia, por exemplo, pensa mil vezes antes de abdicar da pesquisa para se dirigir ao ensino público (ou talvez não seja o caso de se pensar tanto assim).

    e é nesse momento que eu me questiono em relação à univesp e te convido a fazer o mesmo. que tipo de diploma será concedido aos futuros formandos que fará com que esses se dirijam ao ensino público ao invés de, como a maioria das pessoas formadas em cursos de graduação tradicional, a áreas mais atraentes do mercado de trabalho?

    o estado de são paulo finge abrir oportunidades para as classes mais baixas e dá um único caminho, uma esteira que desemboca em suas próprias necessidades e uma corrente, que prende o formado ao ensino público não por escolha ou vocação, mas pragmatismo.

    o governo, por outro lado, ganha. e muito. além da idéia de um curso à distância passar uma aura de modernidade e tecnologia, os números que aparecerão na propaganda são muito bonitos. 5.000 vagas somente esse ano. 60.000 vagas até o final da implantação da univesp! (a usp, com seus 75 anos de história tem cerca de 86.000)

    mesmo sendo positivo que uma maior quantidade de pessoas recebam um diploma, a univesp deve ser vista como o que ela é: uma forma fácil e rápida de munir profissionais com um diploma que será aceito somente num lugar, a rede paulista de ensino.

    lembrete: quanto maior o número de graduados atuando numa rede de ensino estadual, maiores os repasses do mec.


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